Paisagens Imaginárias

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O vapor volta a navegar no Paraguaçu

Em Cachoeira e São Félix (BA), Eder Santos recria em realidade aumentada a embarcação que organizou a vida das duas cidades e desapareceu do rio. A exposição abre em 13 de novembro, com entrada gratuita, e termina em dezembro com três noites de projeção sobre o Paraguaçu

Paisagens Imaginárias, com curadoria de Luiz Gustavo Carvalho, estreia no Recôncavo e depois segue para Belém, Ceilândia e Itabira. O projeto é um programa de extensão da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

Vapor percorria a região da Barragem e a Usina Hidrelétrica de Pedra do Cavalo, no Rio Paraguaçu. Foto: inserir crédito

Cachoeira (BA) – Quem viveu em Cachoeira na primeira metade do século passado sabe reconhecer o som. O apito do vapor atravessava o Paraguaçu antes de a embarcação aparecer na curva do rio, e a cidade inteira se organizava em torno daquele aviso. Comerciantes abriam as portas. Famílias desciam para o cais. Houve época em que a orquestra da cidade aguardava às margens do rio os recém-formados que voltavam de Salvador. O vapor saiu de circulação e levou junto um modo de a cidade se mover. O rio continua ali. A embarcação, não.

A partir de 13 de novembro, o vapor volta a aparecer no Paraguaçu. A imagem se sobrepõe à paisagem real na tela do celular, recriada em realidade aumentada pelo artista mineiro Eder Santos a partir de fotografias, documentos, registros audiovisuais e relatos levantados nas duas margens do rio. A obra integra Paisagens Imaginárias, projeto que tem curadoria de Luiz Gustavo Carvalho, realização da Trem Chic e patrocínio da Petrobras por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, e que começa no Recôncavo sua itinerância por quatro cidades de diferentes regiões brasileiras.

O acesso é livre e funciona pelo telefone. Seis totens sinalizados em Cachoeira e São Félix trazem QR Codes que abrem a obra criadas para o território, instalados em pontos onde a paisagem recriada em realidade aumentada pode ser vista. Nenhum aplicativo precisa ser instalado. Os totens permanecem por pelo menos três anos depois do encerramento da exposição, de modo que o trabalho segue disponível a moradores e visitantes muito depois de a temporada acabar.

Uma pesquisa feita de dentro

O projeto parte da paisagem formada pelo Rio Paraguaçu e pelas camadas históricas, sociais e culturais depositadas em suas margens. O vapor funciona como caso exemplar da operação que dá nome ao trabalho: uma presença que sumiu da paisagem e permaneceu na memória, e que a arte e a tecnologia podem reinscrever simbolicamente no território.

A pesquisa avança também sobre as múltiplas narrativas de independências associadas a Cachoeira e ao Recôncavo, onde uma versão consolidada da história convive com memórias que seguem vivas no território e raramente aparecem nos compêndios. É nesse ponto que a curadoria introduz a figura dos guardiães da memória: pessoas, objetos, documentos, práticas religiosas, manifestações culturais e narrativas orais capazes de preservar e reelaborar experiências que a paisagem já não guarda. No Recôncavo, as joias de crioula estão entre esses guardiães, levadas no corpo como forma de poupança e usadas para a compra de alforria.

Parte da criação acontece ali, em convívio com quem mora nas duas margens, e esse processo abre espaço para que o público acompanhe o trabalho enquanto ele se forma.

Durante a visita de pesquisa realizada entre o fim de setembro e o início de outubro, a equipe gravou depoimentos de moradores que conviveram com o vapor, visitou acervos locais e a ialorixá Bilu de Oxum, do terreiro Raiz de Airá, inclusive tornou-se protagonista da obra Oxum, que integra a série Todos os Santos, de Eder Santos. O conjunto de imagens captadas na cidade alimenta tanto o processo de criação quanto a exposição.

A programação

A exposição ocupa um edifício histórico da Universidade Federal do Recôncavo Baiano, na Rua Ana Neri, nº 09, de 13 de novembro a 20 de dezembro, reunindo videoinstalações que dialogam com os eixos curatoriais referentes ao território. Nos dias 13, 14 e 15 de novembro acontece um ciclo de dez palestras, em formato de seminário, com pesquisadores, professores, artistas, agentes culturais e detentores de saberes locais. Cinco oficinas gratuitas completam a frente formativa, articulando durante o período expositivo criação artística, curadoria, audiovisual, realidade aumentada, memória e patrimônio, com datas a divulgar.

Visitas guiadas gratuitas atendem estudantes, grupos organizados, instituições de ensino, comunidades locais e público espontâneo, com pelo menos uma sessão dedicada a públicos com deficiência. O encerramento acontece nos dias 17, 18 e 19 de dezembro, às margens do Rio Paraguaçu, com projeções realizadas em Saveiros, em uma parceria com o Festival de Saveiros de São Félix.

São Félix participa da temporada em condição de igualdade. Dois dos totens de realidade aumentada ficam instalados na cidade, e as projeções de encerramento acontecem dentro da programação do festival local. As prefeituras das duas cidades assinam a realização.

A universidade no projeto

Paisagens Imaginárias foi registrado como programa de extensão da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, com período de realização entre 15 de outubro e 20 de dezembro. O acordo prevê bolsas de monitoria para estudantes, que vão atuar no acolhimento do público, na mediação das obras, no acompanhamento das visitas guiadas e no apoio às atividades formativas, adquirindo prática em arte contemporânea, mediação cultural, patrimônio e produção.

Professores da universidade acompanham o desenvolvimento técnico das obras. Jarbas Jácome, docente do Bacharelado em Artes Visuais do Centro de Artes, Humanidades e Letras e doutor em Ciência da Computação, pesquisa realidade estendida, computação gráfica e sistemas interativos de tempo real, e desenvolve desde 2003 o software livre ViMus, usado em instalações e apresentações audiovisuais no Brasil e no exterior. Fernando Rabello, professor de arte e tecnologia da mesma universidade, colabora no desenvolvimento das obras e assina o site do projeto.

A pró-reitoria de Extensão e Cultura da universidade é ocupada por Danillo Barata, artista, pesquisador e curador que dirigiu o Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas entre 2013 e 2023 e coordenou a pesquisa do dossiê que levou o Bembé do Mercado ao reconhecimento como patrimônio cultural do Brasil, pelo Iphan, em 2019.

O artista

Eder Santos nasceu em Belo Horizonte, em 1960, e é um dos nomes que organizaram o começo da videoarte no Brasil. Estudou Artes Plásticas na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais e concluiu a formação em Programação Visual pela Fundação Mineira de Arte Aleijadinho, em 1984. Seu trabalho explora o hibridismo da linguagem audiovisual e constrói experiências sensoriais a partir de distorções de cor e som.

Expôs individualmente na Caixa Cultural de Curitiba, no Museu de Artes Visuais de São Luís, no Museu de Arte do Espírito Santo, no Paço Imperial, no Sesc Pompeia, no Museu de Arte Moderna da Bahia, no Centro Cultural Banco do Brasil e no Museu de Arte de São Paulo. Participou de coletivas no Hammer Museum, em Los Angeles, na Tate Modern, em Londres, na Bienal de Havana, na 23ª Bienal de São Paulo e no Museum of Modern Art de Nova York. Recebeu o Prince Claus Fund em 2003 e tem obras nos acervos do Centre Georges Pompidou, do MoMA, Reina Sofia e dos museus de arte moderna de São Paulo e do Rio de Janeiro. É representado pela Luciana Brito Galeria, em São Paulo, e pela Albuquerque Contemporânea, em Belo Horizonte.

A curadoria

Paisagens Imaginárias tem curadoria de Luiz Gustavo Carvalho, responsável também pela articulação do projeto com universidades, museus e prefeituras nas quatro cidades. É dele a pergunta que organiza a pesquisa: quem guardou a memória daquilo que sumiu?

Curador, artista e pianista, Luiz Gustavo Carvalho apresentou a sua primeira curadoria na França, em 2011. No Brasil, como curador de mais de cem exposições, apresentou pela primeira no país a obra de diferentes artistas visuais, tais como Antanas Sutkus, Serguei Maksimishin, Mac Adams e François Andes, entre outros. Em 2012, criou o Festival Artes Vertentes – Festival Internacional de Artes de Tiradentes, que recebeu durante as últimas quatorze edições mais de 550 artistas sob a sua direção artística. Entre 2011 e 2014 integrou a direção artística do Zeitkunst Festival, em Berlim. Participou de diferentes programas de residência artística na América do Sul, Europa e Ásia. Como curador independente, colaborou inúmeras vezes com o Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, no Rio de Janeiro, e o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba.

Depois de Cachoeira

A itinerância segue para Itabira, em Minas Gerais, onde a paisagem investigada é o Pico do Cauê, elevação consumida pela mineração ao longo do século XX e presente na poesia de Carlos Drummond de Andrade. A exposição ocupa a Casa Museu Carlos Drummond de Andrade. Depois vai a Belém, no Pará, em torno do Brigue Palhaço e do massacre de 1823 na Baía do Guajará, com mostra no Espaço Cultural Casa das Onze Janelas. A última etapa prevista é Ceilândia, no Distrito Federal, onde a paisagem é a Caixa D’Água e a história é a do deslocamento compulsório que levou os construtores de Brasília para fora da capital que ergueram. Ali a exposição acontece no Jovem de Expressão, na Galeria de Artes Risofloras.

Entrada gratuita

www.paisagensimaginarias.com

Instagram, Facebook, TikTok e YouTube: paisagens.imaginarias

Ficha técnica

Idealização e direção geral: Eder Santos

Curadoria: Luiz Gustavo Carvalho

Produção: Leandro Aragão e Barão Fonseca

Realização: Trem Chic

Patrocínio: Petrobras, por meio do Programa Petrobras Cultural

Apoio institucional: Ministério da Cultura, Governo do Brasil

Mecanismo: Lei Federal de Incentivo à Cultura, Lei Rouanet, PRONAC 252221

Parceria: Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, prefeituras de Cachoeira e de São Félix, Festival de Saveiros de São Félix

Paisagens Imaginárias é patrocinado pela Petrobras por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Onde tem patrocínio à cultura, tem Governo do Brasil.

Informações para a imprensa

Agência Galo

paisagens@agenciagalo.com

Tales Rocha | (11) 98870-1089 | tales.rocha@agenciagalo.com

Laiz Sousa | Mariana Nepomuceno

Obras em exposição

Serviço

Paisagens Imaginárias | Cachoeira e São Félix, Bahia

Abertura: 13 de novembro de 2026

Exposição: 13 de novembro a 20 de dezembro de 2026

Local: Fundação Hansen Bahia, Rua Treze de Maio, 13, Cachoeira (BA)

Ciclo de dez palestras: 13, 14 e 15 de novembro

Cinco oficinas: datas a divulgar

Projeções ao ar livre: 17, 18 e 19 de dezembro, no Rio Paraguaçu

Circuito de realidade aumentada: seis pontos em Cachoeira e São Félix, acesso por QR Code

Visitas guiadas: agendamento pelo site